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vera pamplona – corpo, presente.

ou

Apontamentos para a compreensão da presença de uma ausência

 

De Marcelo Salles.

VERA PAMPLONA – CORPO, PRESENTE.

 

ou

 

Apontamentos para a compreensão da presença de uma ausência

 

 

Artistas parecem falar sobre muitas coisas. Esta aparente multiplicidade acontece porque eles demoram a perceber que falam apenas sobre si mesmo enquanto ser, enquanto ente pensante, enquanto ser-aí. Não é uma questão narcísica, pelo menos não em artistas nos quais os trabalhos guardam alguma relevância para o conjunto de seres pensantes que habitam este mundo; é antes uma necessidade inexplicável, uma melancolia desejada, uma coceira que não se pode alcançar. Artistas, aqueles que verdadeiramente nos afetam, falam sobre uma única coisa. E as vezes nem se percebem disso, tampouco se importam, desde que consigam expressar-se.

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Vera Pamplona fala sobre o corpo. Seu corpo. Cada vez mais tenho esta convicção. Meu contato com Vera se deu por pouco mais de cinco anos, primeiro como integrante de um dos grupos de trabalho e estudo que coordeno na Casa Contemporânea; depois, conjuntamente, em acompanhamento individual de sua produção. Parte desta nossa convivência se deu durante um período singular na história recente: a pandemia. Acho que ainda vamos demorar para compreender o que aconteceu naqueles meses. A sensação de que estávamos aprisionados e que nossos corpos eram frágeis, muito frágeis. 

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Uma mulher artista. Ou uma artista mulher. Não importa; afinal, são condições indissociáveis e como disse uma filosofa, não é uma questão de condição nata, mas de adquirir esta condição. Como tantas outras artistas, Vera se dividia, abdicava de uma necessidade em troca de outras: a maternidade, a vida conjugal, a criação do lar. Várias artistas sofrem um hiato de anos, as vezes décadas, para retornar ao fazer artístico de forma dedicada. Algumas não retornam. Das que retornam, algumas se assustam com o que surge, outras talvez fiquem felizes, muitas se frustram e desistem. Poucas, bem poucas, continuam, exploram, remexem , cavoucam, recuam, avançam, mergulham, respiram. Respiram. Vera respira.

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Na década de 80, Vera Pamplona estava em plena atividade e com certo reconhecimento. Eram prêmios, exposições, seleção em editais; a linguagem era principalmente a pintura, marcada pelo formação nos anos 70 (uma “pegada” da pop art ) em contato com a chamada “retomada da pintura” típica dos anos 80. Apesar de produzir e pesquisar de forma ininterrupta, seu ritmo de trabalho diminuiu. São outras necessidades que a requisitaram. Seu retorno as artes de forma mais dedicada só acontecerá em meados de 2010. É também esta fase de seus trabalhos que são objeto de minhas considerações.

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Quase uma década de produção intensa (ainda que sempre aparentasse muita tranquilidade, calma nas discussões; um estado de latência, todavia), onde os três trabalhos da série Parola Pax  (2014) são o ponto de uma potência concentrada que explodirá em linguagens e trabalhos variados. Ainda que indícios dessa força apareçam dez anos antes, como no trabalho Ausência / Presença, marcados por um domínio técnico, também há indícios do corpo em trabalhos da mesma época, como as séries Solidão (2007) ou Casa Vazia (2006). Paradoxalmente, o corpo está nestes trabalhos por sua ausência. Essa ausência de corpos, de corpos outros, conduz à reflexão e ao encontro com o corpo adormecido, o corpo dessubjetivado. Seu corpo.

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Esse encontro resultará em muitos trabalhos e em uma expansão da linguagem expressiva. O desenho, linguagem mater do pensamento, dialoga com a fotografia e com os assim denominados objetos. Esse dialogo se ramifica, altera a forma, se concentra, se reduz e mantém sua coerência de maneira improvável. É assim que trabalhos da série Convivência (desenho, 2020) concentram questões presentes na citada série Parola Pax (2014). Utilizando a mesma técnica de caneta esferográfica sobre tecido, Convivência (2020)evidencia partes do corpo , ossaturas, que antes estavam ainda distantes ou indefinidas, mas o ponto que me atrai a atenção é a fusão orgânico-maquinica que remetem à próteses inusitadas e que evoluirão para os objetos da serie Corpus Intus (2021). Mas como não se surpreender e se emocionar com Diálogos / Diários (2018), singela e potente série de vinte e uma fotos em pequeno formato que registram desenhos feitos pela própria artista, com caneta esferográfica, em seu próprio corpo?

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Esse procedimento de ramificação entre as obras  exige um olhar atento para a própria produção e para questionamentos chave que parecem ter sido pensados, ruminados na verdade, por muito tempo. Vejamos, por exemplo, as obras da serie Raízes (2020) e da série Processos (2019), categorizadas como objetos, com suas junções de materiais díspares e aparentemente inadequados (argila, cerâmica fria, metal, madeira) e duas séries fotográficas: Corpo Paisagem (2017) e Paisagem Proibida (2018), com intervenções feitas em fotos impressas, onde o corpo vegetal parece estar em um espaço inadequado, hostil e quase no limite de uma beleza reconhecível; uma beleza nua, descarnada. E obras que chegam no limite da redução estética como nas peças da série Das Pequenas Probabilidades (2020).

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Algumas vezes certas obras parecem que escapam à essa ramificação conceitual e estética, como em Submersas Palavras (2017), livro objeto (nas palavras da própria artista) feito de palavras impressas sobre porcelana, caixas de vidro e agua. Ledo engano. Vejam Quarentena (2020):  trabalhos de pequeno formato com caneta esferográfica sobre papel  onde a precisão do desenho de observação se junta a palavras que formam frases curtas, urgentes ou premonitórias. É como se as palavras tivessem necessidade de ter subido a superfície para respirar. Respirar que também anima uma das obras mais comoventes e belas dessa produção recente de Vera: o objeto Respirare (2020).

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Vera parece ter atingido uma liberdade poética em seu fazer que nos tira um tanto do eixo, nos atordoa. Em Registros sobre o Corpo (2021), ela faz uma série de fotos que são registros performáticos. Nessas obras o corpo é, literalmente, suporte. E torna-se matriz de impressão; os desenhos da série Regras e Senhas (também de 2021), se valem de uma “mancha” abstrata a partir da tinta depositada no corpo-matriz da artista que se juntam a elementos figurativos que usam suas próprias obras à maneira de um inventário. O corpo, individual e perecível, é agora outros corpos: o corpo social, o corpo da linguagem, o corpo do pensamento, o corpo inventado, o corpo antropotécnico, o corpo geográfico. O Outro corpo.

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Na última conversa que tivemos falamos sobre o Universo. Vera estava iniciando uma série denominada SIDUS. A complexidade envolvida no tema formalizava-se de maneira assertiva e concisa, como apenas pensamentos exaustivamente trabalhados e questionados conseguem tomar forma, ganhar “corpo”. Executados a partir da impressão, em papel artesanal, de partes do corpo-matriz da artista somados a papel lixa, grafite e lápis de cor, se estabeleciam relações de ordem micro e macro num mesmo espaço suporte. Vera parece ter compreendido que a obra de um artista é maior que o ser. Talvez tenha conseguido nos mostrar a beleza incomensurável de sermos poeira de estrelas.

Marcelo Salles     

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